Uma opinião sobre “ser crítico”

A metacrítica como objeto de discussão na coluna de Raphaella Torres sobre a sétima arte



O cinema é uma arte popular, mas por que a crítica não é? (Claudette Barius/Netflix)


Teve um tempo que estava fazendo cabines de imprensa para um blog de cinema aqui do Medium chamado Chupeta de Pipoca. Depois que você entra nessa lógica e nesse mundo, percebe nuances que só a arte dá a seus artistas e críticos.

Apesar de no começo ser ingênua quanto ao feito, entendo agora que existe muito ego envolvido no processo do “ser crítico”. Por vezes, fui e sou um espelho disso.


“[…] é tarefa da arte tornar manifestas as contradições do ser. Formar visões justas despertando contradições na mente do espectador, e forjar conceitos intelectuais acurados a partir do choque dinâmico de paixões opostas” (EISENSTEIN, A forma do filme, p. 50)



Não considero que eu tenha um vasto conhecimento sobre o cinema como muitos, porém, sim, comecei a fazer críticas para ter um início. Durante o período conheci pessoas, estabeleci relações com outros críticos, li mais críticas que em outras épocas da minha vida e, sempre que o fazia, sentia vergonha do conhecimento que ainda não possuía ou dos filmes que ainda não tinha assistido.


Entretanto, pensando agora, em muitas críticas, não é a falta de conhecimento do leitor que a deixa menos interessante e sim o ego do escritor que elabora esse tipo de texto. Por exemplo, a maioria das críticas que leio são uma compilação de comparações do diretor em questão com outros, algumas pitadas de elogios ou questões formadas a partir da filmagem, opiniões acerca da trama e da atuação dos atores. Todos acompanhados de exemplos comparativos com outras obras, diretores e só, sem explicação de o porquê compará-los. Ou seja, um fato apresentado, sem qualquer informação ou utilidade. E isto me incomoda profundamente (fiz isso algumas vezes, confesso, por querer imitá-los).

Mas, por que incomoda? Mostra que o crítico só quer salientar o conhecimento que tem sobre a sétima arte para um grupo específico de cinéfilos e estudiosos, sem fazer questão de falar com a maioria do grupo que busca entender o cinema e tem pouca bagagem sobre essa arte. Quais as consequências? Isso faz da crítica um lugar para poucos.


Sim, sei que existem obras que não são feitas para se tornarem populares e tem filmes que só são feitos para isso. Mas aqui, busco entender um pouco o papel da crítica e não do cinema em si.


Posso estar me contradizendo, mas uma vez em minhas buscas por mais conhecimento, entendi que a boa crítica cinematográfica é aquela que consegue fazer com que o leitor aprenda mais sobre a sétima arte e como o cinema está evoluindo. Acredito nisso. Assim como quero aprender sobre o cinema, quero apresentar no meu texto aquilo que aprendi com determinado filme, diretora, ator, roteirista, produtor, e passar essa informação. Não somente com um exemplo do meu ego, mas também com uma explicação do porquê, para que as pessoas leiam e entendam pelo menos um pouco do que quero dizer.


Em outras palavras, quero levar um aprendizado, não somente mostrar que tenho anos de crítica de cinema e assisti milhões de filmes e conheço a vida e obra de milhares de diretores. Isso não ensina, somente mostra que você tem experiência.



“Combinações emocionais, não apenas com os elementos visíveis dos planos, mas principalmente com cadeias de associações psicológicas. […] Tal recurso pode deteriorar-se patologicamente se o ponto de vista — dinamização emocional do tema — se perde. Assim que o diretor perde de vista esta essência, a forma ossifica-se em simbolismo literário sem vida, e maneirismo estilístico” (EISENSTEIN, A forma do filme, p. 64–65).


Assim como Eisenstein expõe sobre a deterioração das combinações emocionais na relação diretor-montagem-público, o crítico precisa elaborar uma ideia sobre um filme em que seja capaz de estabelecer uma combinação emocional com o leitor, de modo que o último ou última não se sinta lesado pela falta de conhecimento sobre algo. E sim aprenda mais sobre ele.


O cinema é uma arte em constante evolução. Uma arte capaz de se moldar com outras. Uma arte capaz de estabelecer diversas conexões. O papel do crítico, portanto, está ligado à compreensão dessa evolução e apresentação dessas conexões ao público para que haja “associações psicológicas” que transforme a obra cinematográfica analisada em arte.

Posso estar sendo ingênua, porém, isto é uma opinião atual sobre o “ser crítico”. Talvez no futuro eu tenha outra, porque o cinema e a crítica é uma eterna estrada para o entendimento da sociedade e de si próprio.





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