Por que ler Murakami na era da internet?

Do Jazz ao feminismo, da escrita fantasiosa à realidade. Entenda por que o Murakami é o queridinho da literatura



Falar de literatura na era da internet é algo quase que sonolento. Quando começamos o primeiro parágrafo, o smartphone mostra pontinhos de notificações e revela as carências conectivas de alguém; ou logo surge a necessidade imagética de ver algo que não seja somente letras. A competitividade é grande quando o assunto é ler um livro.


Existem inúmeras barreiras entre o mundo real e aquele calhamaço de papel, que podem ser rompidas com três chaves do sucesso: 1- se a literatura de fato for seu crush e essa paixão derrubar todos os empecilhos. 2- Ritalina, a droga da concentração, que vai diretamente ao seu sistema nervoso central e vai despertar todos seus amores maiores pelo foco. (não muito indicada, consulte seu médico) 3 – se você souber quem é Haruki Murakami.


O escritor japonês rompe todas as barreiras quando o assunto é o interesse pela ficção. Conhecido como um dos melhores romancistas e contistas do mundo, Murakami foge da curva da literatura tradicional japonesa e coloca pitadas de modernidade, sonhos a lá Cortázar e reforça o rótulo de fazer um genial realismo fantástico. É fato, ele escreve de uma forma incrível.


Um dos livros mais famosos “Minha querida Sputnik”, publicado em 2001 o autor mostrou o domínio ao entrar nas profundezas da alma humana e colocar de forma quase que surreal a história de Sumire, uma menina caótica que não possui desejos e nem atrações por ninguém até conhecer Miu, uma empresária mais velha. O autor e mostra uma paleta interminável de referências e pincela o universo dos ‘Beatniks’, que criou um estereótipo próprio e um movimento nos anos 50, denominado depois por Jack Kerouac como “Geração Beat”.

A fusão de realidade e sonho é uma marca do seu trabalho. Na trilogia “1Q84”, por exemplo,  possui um enredo intrigante com uma personagem assassina justiceira. Em diversos momentos é possível imaginar que estamos assistindo um filme de ficção científica de uma forma não tão dura, o que nos leva a crer que estamos num sonho. Bom exemplo também é “Kafka à beira-mar”, que mostra o incrível manejo do autor de lidar com um universo real de forma quase que fantasiosa.


A primeira vez que entrei em contato com sua obra a empatia aconteceu como mágica. O autor é apaixonado por música e fica fácil encontrar clássicos do jazz, sinfonias clássicas e rock, de uma forma que nos faz pesquisar na mesma hora, para ouvir as músicas e imaginar a cena retratada. Ele consegue referenciar outros autores de forma primorosa, como se fossem hiperlinks, que nos fazem empolgar tanto com a leitura, que desejamos clicar e ler imediatamente outras obras.


O que mais me chama atenção e o que me encanta cada vez que leio uma obra do Murakami, são suas personagens. As mulheres dominam suas histórias. Da clássica mulher japonesa domesticada em sua tradição às pitadas feministas arrojadas. Posso dizer que ele é um entendedor de mulheres nato. Em um dos meus contos (quase podemos chamar de romance) favoritos chamado “Sono”, publicado em 1991, ele retrata uma dona de casa, esposa e mãe, fadada ao compromisso com o lar e com seus pensamentos rotineiros. Ela entra no universo da insônia e começa a trocar o dia pela noite, num ciclo de transformação e indagação da sua própria maneira de existir. Ela lê Anna Karenina, um clássico de Liev Tolstói e aos poucos vamos acompanhando essa agonia. Para mim, essa é a cena mais incrível de toda literatura que li até hoje.


Na era da internet, Murakami reina. Só ele é recheado de referências super contemporâneas e disponibiliza hiperlinks mentais maravilhosos. Uma viagem sem volta. Eu indico!




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