O quadro do quadrado

Artistas plásticos brasilienses contam suas histórias e mostram a relação com a cidade, com a inspiração e como funciona o processo criativo



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Bertolt Brech foi responsável por grande desenvolvimento do chamado teatro moderno e assim como outros grandes nomes da literatura, das artes plásticas e da filosofia, ele também se fez a pergunta quase que indecente sobre ‘o que é a arte?’. O famoso dramaturgo alemão, assim como muitos outros grandes nomes que também tragaram interrogações da questão, chegou à suntuosa resposta que a arte é complexa, subjetiva e necessária, porém para ele “todas as artes contribuem para maior de todas as artes: a arte de viver”.


Poético ou não, a arte é uma atividade humana de percepções, sentimentos e ideias num estímulo constante da expressão. É nesse contexto que funciona à flor da pele e claro, com o requinte da técnica, o trabalho do artista.


Em Brasília, a cidade concebida pela arte, jovens talentos estão espalhados em diferentes pontos. Não é por acaso que além do ‘traço do arquiteto’, a metrópole é composta por grafites, esculturas, exposições abertas e entre outras atividades da rotina do artista brasiliense.


Além do desafio de criar e fazer uma memória afetiva da cidade através de suas obras, retratar amores, políticas, debates e compor com novas inspirações, o trabalho local também é composto por técnicas, estudos e dedicação.


Acompanhamos de perto ateliês de artistas plásticas locais para saber como se dá a relação do nosso querido quadrado em suas obras.


Clarice Gonçalves, introspecção viva


|”Conforme você vai crescendo

como pessoa, a cidade vai crescendo ou

diminuindo dentro de você”


Clarisse Gonçalves, nasceu em Brasília em 1985 e já faz parte de uma classe artística bastante conhecida na capital. Seus trabalhos são facilmente identificáveis por tamanha personalidade que desde muito cedo rabiscava em seu universo de forma intensa.

Quando criança gostava de desenhar e sua introspecção foi o impulso para o nascer de uma arte repleta de memórias, divagações e diferentes formas de composições. “Ser artista nunca foi uma escolha, foi algo natural. Como toda criança eu desenhava, pintava e a diferença foi que eu continuei e aquilo foi virando uma forma de expressão, uma forma de me situar na sociedade”, conta.


Graduou-se em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília (UnB) em 2008 e desde então já realizou exposições, não apenas na capital, mas também em diferentes lugares do Brasil. Foi na própria academia que a artista acrescentou novos conceitos às suas obras. Com as disciplinas de sociologia e psicologia do gênero, Clarice conseguiu conceituar melhor seu trabalho e certificar que eram esses assuntos que intuitivamente eram passados para a tela desde muito cedo.


Questões de gênero e feminilidades estão presentes. Suas obras demonstram uma inquietação emocional, com diferente proporções, rostos e cenas. Clarice brinca com as imagens de uma forma muito sutil, que numa mesma obra é possível identificar crianças, mulheres e família numa multiplicidade de cores e sentimentos.





Malu Engel, a essência da liberdade


|”A identidade cultural

de Brasília está cada vez

mais pulsante”


Nascida em Brasília com caminhos traçados pelo destino itinerante dos pais, Malu Angel de 26 anos, descobriu sua arte ainda muito cedo. De uma atividade comum de criança, como riscar a casa, sua família enxergou uma potencialidade. Dsde muito nova tinha a sua própria parede como espaço criativo, “Sempre tive muito incentivo para me expressar, comecei a fazer ateliê de arte bem nova, com 5 anos, eu era a mais jovem da turma”. Engel, que também gosta de dança e música, identificou logo os traços de sua veia artística, e expandiu sua arte também para o canto.


Formada em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília (UnB), a artista recorre suas influências à consagrados nomes como Henri Matisse, Vincent van Gogh, René Magritte, mas não deixa de enxergar o céu e as cores de Brasília como algo inspirador.

Em 2015, Malu começou a trabalhar com paisagens mais figurativas e observação da cidade para criar cartões postais que dialogassem com os brasilienses. Nesse período obteve um bom retorno e abriu contato para o desenvolvimento da sua arte, não só abrindo portas como artista, mas também viabilizou financeiramente seu trabalho: “Eu vivo de arte e não é fácil, assim como muita gente vive de algum emprego, mas eu prefiro trabalhar com o que eu gosto”.


Com pinturas rápidas, prefere a tinta acrílica como técnica, mas também se divide com a aquarela em diversos de suas obras.



Guilherme Freire


|”Como professor, está sendo

muito legal ter esse olhar de

espectador dos processos artístico”


Por força do destino, uma família de comerciantes de São Miguel do Araguaia, noroeste goiano, desembarcou no quadrado do Distrito Federal para montar novos empreendimentos. Foi assim, que Guilherme Sousa Freire desembarcou na capital e aqui traçou distintos caminhos.


A criação e a produção de objetos artísticos sempre estiveram interligados na sua essência. Guilherme, sempre gostou de pintura e desenho, mas a profissão sempre foi uma incógnita, já que era muito comum ouvir que a arte não era uma atividade sustentável. Foi empreendedor e administrou sua própria loja durante 10 anos, depois seguiu com seus planos para ser arquiteto e educador físico.


Dizem que decidir pela arte não é uma verdade, ela mora e enraíza no artista, as vezes se mantem adormecida e basta um grande acontecimento para despertar uma decisão, e foi o que aconteceu com ele “A decisão de ser artista veio quando conheci o artista brasiliense Carlos Borges, pai de umas amigas minhas. Entrar na casa dele e ver toda aquela produção… Conversar e perceber conhecimento sobre o assunto me fez decidir ser como aquele cara”. Inevitavelmente, foi cursar Artes Plásticas na Universidade de Brasília, no qual seguiu uma grande paixão.


A tinta óleo ocupa um espaço importante na sua produção, assim como a modelagem, “estou pesquisando uma técnica japonesa e também russa de produção de bonecas com articulações em bolas (ballJointed Dolls). Então, todo momento que tenho um tempinho livre, reforço essa pesquisa.”


Guilherme sempre se reinventa e busca uma proximidade com uma nova criação ou observação “Atualmente estou focado em detalhes de objetos ou plantas... Detalhes muito próximos, a visão macro mesmo das coisas. Provavelmente devo fazer uma série de pinturas e esculturas... Mas ainda estou no processo.”


No final de 2013, descobriu uma vocação: proporcionar essa essência artística em outras pessoas. Como professor de artes numa importante escola de Brasília, o artista gosta de despertar novos talentos e ter uma diferente ótica do assunto, “ Está sendo muito legal ter esse olhar de espectador sobre os fatos artísticos, passar isso em forma didática e transformar esses acontecimentos em metáforas para que os alunos entendam a função da arte na história e no cotidiano deles.”





Sobre as autoras


Isabela Menezes é jornalista e assessora de imprensa.

Foi editora do site Pra Onde Fugir, originário dessa matéria.


Fernanda Sá é jornalista e fundadora do Studio F//Lab Criativo.










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