Livro da escritora Débora Diniz ainda é o mais indicado para direcionar estudantes

'Carta de uma orientadora' norteia a relação entre orientador e orientando na vida acadêmica e demonstra que esse processo não precisa ser doloroso


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A autora, Débora Diniz é antropóloga e também se denomina uma híbrida acadêmica, por

transitar em diversas áreas do conhecimento, pelo fato de lecionar metodologia, documentário,feminismo, bioética e direitos humano na Universidade de Brasília. Recebeu diferentes prêmios por suas pesquisas, livros e filmes. Seu trabalho atual está situado na discussão sobre mulher brasileira que realiza aborto ilegal, buscando nesse debate argumentos que auxiliem a descriminalização do aborto para que se torne uma temática de saúde pública.


O livro Carta de uma orientadora: o primeiro projeto de pesquisa, foi lançado em 2012 pela editora Letras Livres. Desde então é um clássico para quem entra na universidade. Tem como voz ativa uma orientadora em conversa com sua orientanda e busca dar diretrizes do

mundo acadêmico-científico, bem como explicitar possíveis expectativas e desapontamentos com o processo de produção de um projeto de pesquisa. A autora traz seus relatos e experiências de vida em guiar pessoas no mundo acadêmico e dá orientações e para a criação de textos científicos. Apesar da temática, o livro não possui um viés metodológico,mas sim uma proposta de diretrizes de como lidar com este processo para ser o mais bem sucedida possível. Sendo assim, ela destaca quatro pilares principais: pesquisa bibliográfica ou de campo, leitura, escrita e revisão; e faz um vínculo profundo desses processos com o uso do tempo.



A autora percorre temas que envolvem o processo de produção de textos acadêmicos, desde a escolha do título do trabalho até a utilização de um cronograma semanal de

organização de tarefas ao longo de todo este processo. É possível notar o olhar de parceria e escrita conjunta entre a orientanda e orientadora, demonstrando uma possibilidade de boa relação interpessoal entre esse contato tão temido e demonizado. O bloqueio criativo ou a habilidade da escrita também estão presentes neste debate, desmistificando a inspiração e demonstrando que o processo de escrita é uma questão de prática e também de muita leitura. Ela destaca ainda que o tempo será o seu principal aliado e o seu pior inimigo, sendo determinante entender sua relação com ele, ou seja, como organizar suas tarefas pessoais com o desafio de realizar o processo de escrita acadêmica. Atrelado à temática do tempo, Débora Diniz reforça a importância da constante busca por referência bibliográficas e informa de antemão que a leitura estará presente em todas as etapas da produção do texto. Assim, orienta sobre as diversas fontes de busca computadorizadas de textos acadêmicos, sobre como organizar essa bibliografia encontrada pelo uso de programas informatizados, entre outras questões. Por fim, destaca o cuidado com o plágio e fala da importância de se revisar o que está sendo escrito, uma vez que após publicado não é possível alterá-lo.


Assim, ao refletir sobre o processo produção, percebe-se que é impossível não pensar sobre a necessidade de se conhecer os métodos de pesquisa e o bom uso das teorias. Quando a autora destaca a importância da leitura tanto de referenciais teóricos, como de outros trabalhos semelhantes à sua temática, entende-se que tais conceitos partem de um contexto maior, pois após a escolha do tema a ser pesquisado, deve-se decidir o tipo de pesquisa que será realizada, ou seja, se será qualitativa, quantitativa ou mista. E isso diz respeito à identidade da sua produção, pois essa escolha está diretamente ligada à definição do seu problema de pesquisa, descobrindo se esta será a melhor forma para coleta e análise de dados, por exemplo. O ponto de interlocução mais garrido entre o livro da Débora Diniz e o do Creswell no livro Projeto de Pesquisa é o da revisão da literatura, como peça fundamental para execução da sua proposta. Creswell fala que explorar a literatura auxilia a traçar um mapa visual dos estudos relacionados a seu tópico,

juntamente com a definição de palavras-chave vinculadas a ele. Ou seja, a leitura constante de produções acadêmicas de maneira geral enriquecerá fortemente o processo de produção de textos científicos, sendo possível elencar qual o tipo de literatura mais relevante sobre seus tópicos, bem como quais auxiliarão no desenvolvimento da autoria de um projeto de pesquisa. Pode-se ainda vincular o processo de revisão da literatura com o uso das teorias existentes, relacionando-a com o tipo de pesquisa escolhida e considerando a etapa de planejamento dos estudos teóricos como parte integrante deste processo.


Experiência


Em minha experiência pessoal de escrita acadêmica, principalmente numa prospecção no

diz respeito ao mestrado, a relação com o tempo e sua organização me desperta para a sua

importância e ao mesmo tempo me aflige após a leitura desse livro. Quando a autora realiza uma série de perguntas como: – Quanto tempo você leva para ler uma página de um texto acadêmico? Quanto tempo você demora para escrever uma página? Quanto tempo você consegue ler sem que algo te distraia? Quais os melhores horários para seu melhor rendimento em relação à leitura e escrita? De quanto tempo preciso para revisar uma página escrita? – confesso que desconheço tais informações com tanta rigidez e assertividade, mas reconheço sua importância. Uma outra questão que me chamou a atenção é a seriedade que deve ser levada em relação à organização de tarefas por semanas, ou seja, o planejamento total de todas as etapas do seu projeto.


Assim, sou desafiada a realizar um melhor manejo do meu tempo, bem como de planejar cada etapa necessária para a realização do cronograma previsto. A escrita acadêmica não me angustia, nem o possível processo de bloqueio criativo, mas sim a habilidade em utilizar o tempo a meu favor, no sentido de que ele seja bem aproveitado e seja o mais produtivo possível. Foi importante entender que o levantamento bibliográfico ou revisão de literatura são a principal chave para que os tópicos e os problemas de pesquisa sejam respondidos, pois as respostas e informações virão desses estudos e dessa etapa contínua. Sendo assim, a questão tempo, a questão leitura e a intersecção de ambos será o meu maior desafio, pois a leitura na verdade será um investimento do meu tempo para que o processo de escrita aconteça de maneira mais fluida e mais bem-manejada, uma vez que a base teórica e o diálogo entre tais leituras serão meu aporte central.


Por fim, a impressão geral do livro é a surpresa com a postura adotada pela orientadora, se

importando a todo instante em, de fato, orientar e desmistificar o ambiente de produção

acadêmica, ou seja, se comunicando, passando informações. Me remeto a tantos relatos de

sofrimento e de falta de direcionamento que já ouvi na graduação, de alunas que estavam

perdidas em tal processo por ausência de informações tão importantes para esse processo por parte das orientadoras. Tal livro deveria ser obrigatório ao se matricula nas disciplinas TCC´s da graduação, bem como para todos os mestrandos, uma vez que refresca alguns tópicos cruciais no processo de produção de um texto acadêmico científico e direciona para as principais partes ao longo de todas as etapas.



Sobre a autora


Liliany Silva é psicóloga clínica, mestranda no programa de Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília. Co-fundadora do Studio F//Lab Criativo.






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