Absorvendo o Tabu e o desafio da normalidade

Por que falar sobre menstruação incomoda tanto?

Por Raphaella Torres


Netflix | Promotional banner for Oscar-winning documentary short "Period. End of Sentence."

Ver um documentário sobre menstruação ganhando destaque por ter vencido o prêmio de melhor curta-metragem no Oscar 2019, só mostra o quanto o assunto ainda é um grande tabu no mundo. Afinal, apesar da menstruação ser unanimidade entre mulheres, tal abordagem ainda é considerada um problema quando tratada em público. O que levou muitos jornais a se surpreenderam com a escolha da Academia.


Mas, por que isso é tido como um problema? Por que a menstruação é tão complicada de ser tratada pelas pessoas? Qual o problema de encarar algo natural como verdadeiramente natural?


Netiflix/ reprodução



“— Já ouviram falar em menstruação? — Sim, eu já. É um tipo de doença, não?”






O curta da diretora Rayka Zehtabchi e produzido por Melissa Berton retrata o drama do Distrito de Hapur, vilarejo que fica em uma região rural da Índia. Lá não se fala em menstruação. As mulheres quando falam sobre o tema no documentário ficam claramente envergonhadas. O assunto não é amplamente explicado, ou seja, a maioria não sabe o que acontece em seu corpo para ter uma reação que a leva ao sangue. Já os homens tratam isso como uma doença. Sim, uma doença.


Absorventes íntimos na Índia são caros, o que obriga muitas mulheres a usar panos que não são bem higienizados. Portanto, durante esse período, muitas mulheres deixam de sair de casa, conversar com o pai, irmão ou marido. Menstruação para elas é sinônimo de isolamento.


“O que acontece é que na presença do patriarca, leva-se tempo para conversar sobre assuntos relacionados às mulheres. Leva tempo até entre nós, mulheres, mas acontecerá” [relato de uma entrevistada do curta-metragem]



Se não é permitido que elas mantenham uma vida normal quando menstruadas, a vida delas se modifica totalmente. Em vez de trabalharem e irem para a escola, muitas delas se sentem envergonhadas. Elas preferem largar os estudos e nem procuram trabalho por se considerarem sujas durante esse período.


Mas, além da dependência, existem vários problemas que se originam dessa falta de comunicação. Uma delas, e que fica mais claro no documentário, é a falta de instrução sexual. Afinal, se não é fácil falar de menstruação imagina falar sobre o corpo feminino e masculino.

Essa falta de informação gera gravidez indesejada, além da falta de maiores cuidados com a saúde. Isto é, entre a prevenção e as consequências, o que está sendo colhido são os danos de um preconceito antigo, originário de várias falhas em nossa sociedade atual.


Seja por questões de privacidade ou por preconceito, a menstruação é uma questão verdadeiramente comum a quase metade da população mundial. Mas, apesar disso, é uma questão que envolve tabus, vergonha e em alguns lugares, como o Distrito de Hapur, o assunto acaba se tornando um motivo de isolamento e dependência feminina.



"Sou eu contra o vilarejo inteiro. Como posso lidar com isso sozinha? Eles acham: ‘Ela é louca! Vai saber o que se passa na cabeça dela?’. Eu percebo que as meninas não têm muita liberdade, especialmente depois do casamento”, diz Sneha, uma das mulheres do distrito responsável por vender os absorventes confeccionados pelas mulheres da comunidade.


Mesmo que o assunto do documentário de apenas 26 minutos seja interessante, as portas abertas por ele são gigantescas. Não só aborda questões como o fluxo menstrual em uma comunidade onde o enxerga como tabu, mas vai além. Somos levadas para uma série de consequências devido a um preconceito por uma coisa natural.


As mulheres são praticamente obrigadas, por pressão social, a deixar a escola, não conseguem emprego e, por consequência, dependem do homem. Todas as situações de repressão são impostas somente pelo preconceito com a menstruação.


Um ponto forte do documentário está principalmente na observação desse tabu e como, apesar de ser mais aceito em países ditos mais evoluídos como Estados Unidos e Brasil, o assunto em si também é pano de fundo para muitos preconceitos enraizados na cultura de uma sociedade.


A questão da menstruação não é tratada como doença na maioria sociedades contemporâneas. Porém, muito menos se fala sobre ou, quando se fala, é somente com diálogos pejorativos ou conteúdos relacionados à saúde da mulher. Ou seja, não se discutem as consequências do preconceito velado contra a menstruação. Algo repentino para o sexo feminino.



“O mundo não pode avançar sem as mulheres. Somos as criadoras do universo” (Netflix/Reprodução)

A menstruação no lugar comum


Quando nos deparamos com comunidades como essas, sejamos nós brasileiras, norte-americanas, espanholas, francesas, e etc, achamos tudo um absurdo. Como pode em pleno século XXI existir sociedades que pensam desse jeito? Muitas de nós acha que recriminar a mulher por uma coisa tão natural é coisa do passado. Não existe isso em nossos tempos. Porém, enganam-se.


Mesmo que não seja tão radical, nossa sociedade contemporânea também tem seus tabus contra a natureza da menstruação. Entretanto, estes tabus em vez de escancarados como no vilarejo da Índia, eles acabam por ser um assunto oculto.


Seja na maneira discreta como a mulher chama a outra para um canto de um sala cheia de homens e pergunta por um absorvente, seja no modo como as justificativas dos atos femininos raivosos são julgados como obras da TPM, ainda existem sim consequências sobre a menstruação na vida cotidiana da mulher.


Por exemplo, na época da corrida eleitoral norte-americana entre Donald Trump e Hillary Clinton, uma série de entrevistas com os eleitores do candidato republicano foram divulgadas nas redes sociais. Entre as muitas justificativas que tinham para não votar em uma futura presidenta, uma das eleitoras disse: "Ser presidente é um trabalho para um homem. Mulheres têm mais hormônios. Ela pode começar uma guerra em 10 segundos. Se ela estiver na menopausa. Tanto faz! Boom!".


Mesmo que não falando diretamente a palavra menstruação, fica claro o preconceito da eleitora, também uma mulher, sobre ser mulher, desnaturalizando ou, melhor, demonizando um período hormonal completamente comum na natureza.


Absorvendo a ignorância

Por mais que seja surpreendente encontrar comunidades que ainda desnaturalizam a menstruação, não podemos deixar de perceber que mesmo nas sociedades mais evoluídas este é um caso muito pouco discutido. Mesmo que o tratamento que damos ao período menstrual atualmente seja mais humano, ainda existem falhas e preconceitos concebidos na ignorância que impedem o homem de ver na mulher um igual.


O filme foi capaz de abrir espaço para entender, mesmo que superficialmente, que não é só naquela comunidade que esse preconceito é um tabu.


Ainda hoje com toda a tecnologia e avanço social, a natureza da mulher sofre preconceitos cotidianos. Não com consequências tão duras como apresentado pelo curta, mas mesmo assim com consequências. Tais ideias se não analisadas e explicadas, são capazes de nos fazer retroagir, induzindo a luta da mulher por mais reconhecimento e igualdade a uma eterna batalha, sem perdedores nem vencedores, somente guerreiras.


Ajuda

Se você quer ajudar a melhorar a vida das mulheres do Distrito de Hapur e ajudá-las a instalar mais máquinas de absorventes pelo mundo, apoie The Pad Projetc pelo site www.thepadproject.org .





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